Esse número, registrado pelo Censo Demográfico de 2022, representa apenas quem conseguiu chegar até um profissional de saúde, receber um laudo e ter esse dado registrado em algum sistema. Os especialistas estimam que o número real seja significativamente maior, porque o acesso ao diagnóstico no Brasil ainda é profundamente desigual e o subdiagnóstico é uma realidade documentada, especialmente entre mulheres, adultos e populações de baixa renda que nunca chegaram a um neuropediatra ou a um psiquiatra infantil.
com TEA estão matriculados hoje. A maioria deles frequenta salas de aula regulares onde o professor titular não recebeu formação específica para lidar com as necessidades do espectro, onde não há um segundo professor com qualificação adequada, e onde a estrutura física e pedagógica foi pensada para um perfil de aluno que não contempla a neurodiversidade. Essas crianças não estão fora da escola. Estão dentro dela, mas invisíveis para um sistema que confunde matrícula com inclusão.
A espera por avaliação neuropsicológica no SUS pode chegar a quatro anos em algumas regiões do país, conforme levantamento apresentado em audiência pública na Câmara dos Deputados em 2026. Quatro anos é tempo suficiente para que uma criança passe por toda a primeira infância sem o suporte terapêutico que poderia transformar seu desenvolvimento. A neurociência estabelece com clareza que intervenções precoces produzem resultados substancialmente melhores do que intervenções tardias, e que cada mês perdido na fila de espera é um mês em que o cérebro de uma criança se desenvolve sem os estímulos adequados. O Estado catarinense não tem:
Uma família de baixa renda com um filho autista que precisa de fonoaudiologia, terapia ocupacional e neuropsicologia de forma regular enfrenta um custo mensal que pode superar dois salários mínimos no setor privado. Quando o SUS não oferece essa estrutura em tempo hábil, a família que não tem dinheiro simplesmente fica sem atendimento. A criança fica sem atendimento. E o discurso público continua falando em inclusão como se inclusão fosse um valor abstrato desconectado de orçamento, de política pública, de vagas reais e de profissionais formados e contratados pelo Estado.
Uma criança autista que tem uma crise num espaço público é julgada antes de ser compreendida. Um adolescente autista que se comporta de forma diferente do esperado é tratado como problema disciplinar antes de ser tratado como aluno com necessidades específicas. Profissionais de saúde sem formação especializada emitem laudos equivocados ou questionam diagnósticos estabelecidos. Servidores públicos sem capacitação em neurodiversidade criam barreiras burocráticas para famílias que já estão no limite. Essa cadeia de ignorância institucionalizada não é acidental. É o resultado direto de décadas de ausência de políticas públicas sérias voltadas para a causa autista em Santa Catarina.
Não existe solução para os 91 mil catarinenses autistas e suas famílias que não passam por legislação aprovada, por recursos públicos alocados, por profissionais formados e por uma sociedade que aprenda a reconhecer e respeitar a neurodiversidade como parte constitutiva da vida humana. Esse trabalho não se faz em abril, não se faz com uma campanha e não se faz sozinho.
Se você é familiar de uma pessoa autista, se você trabalha com educação especial, se você atua na saúde ou na assistência social, se você é gestor público ou pesquisador, se você simplesmente acredita que Santa Catarina precisa tratar essa causa com a seriedade que ela exige: este movimento é seu. Assina a causa autista.